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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A aliança das obras e a aliança da graça: O que é a teologia das alianças?


 No século 17, desenvolveu-se na teologia reformada uma visão de que as alianças entre Deus e a humanidade constituíam um elemento central dos ensinamentos das Escrituras. Em obras mais antigas, essa abordagem à Bíblia era chamada de federalismo. Hoje em dia, é mais comum chamar esse ponto de vista simplesmente de teologia das alianças ou teologia pactual.
Na teologia das alianças tradicional, todo o relato histórico da Bíblia foi dividido em duas relações principais de aliança: a aliança das obras e a aliança da graça. Nenhuma dessas expressões aparece na Bíblia, mas as distinções são teologicamente úteis, uma vez que refletem a unidade subjacente das Escrituras, assim como o termo “Trindade” resume um aspecto essencial da doutrina das Escrituras acerca de Deus. Essa abordagem das alianças é expressa claramente na Confissão de Fé de Westminster e nos Catecismos (CFW 7.1-5; 19.1,6; CM 31-36,97).
Na teologia reformada, a expressão aliança das obras se refere ao acordo que Deus fez com Adão antes de a humanidade cair em pecado, e não à aliança feita com Moisés no Sinai, conforme outras tradições cristãs costumam empregar essa designação. Na aliança das obras feita com Adão, Deus prometeu abençoar Adão se ele obedecesse ao mandamento divino (Gn 1.28-30), e julgá-lo caso desobedecesse (Gn 2.15-17). As obras de Adão constituíam o fator determinante, daí o termo aliança das obras (cf. Os 6.7). Nos últimos anos, tem-se questionado a utilidade de descrever a relação de Adão com Deus como aliança das obras; muitos estudiosos preferem falar apenas de um arranjo ou período de experiência anterior à queda do homem em pecado e à redenção. De qualquer modo, as Escrituras mostram que Adão não obedeceu a Deus. Assim, Deus providenciou outra aliança, a aliança da graça em Cristo.
A expressão aliança da graça é usada para descrever a relação de Deus com seu povo ao longo do restante das Escrituras. Estritamente falando, essa aliança foi firmada em definitivo com Cristo como último Adão, o representante da humanidade redimida. É chamada de aliança da graça porque opera com base na graça divina oferecida por meio da morte e ressurreição de Cristo a todos aqueles que creem nele. Alguns teólogos reformados falam de uma aliança celestial eterna entre o Pai e o Filho, a qual descrevem como aliança de redenção (Jo 6.37). A aliança da graça é a expressão histórica dessa aliança eterna.
A aliança da graça começou com a promessa feita depois da queda de que a descendência da mulher feriria a cabeça da serpente (Gn 3.15). A partir desse momento, a aliança da graça se desdobrou em cinco estágios principais ao longo do relato bíblico. Não há contradição entre esses estágios; antes, cada estágio subsequente se desenvolve com base nos anteriores.
(1) Depois da oferta inicial da graça de Deus a Adão (Gn 3.15), a aliança da graça se desenvolveu por meio da aliança da preservação da natureza firmada com Noé (Gn 6.18; 9.9-17). O enfoque da aliança com Noé é a estabilidade da ordem presente da natureza até o fim de todas as coisas, provendo, desse modo, um âmbito estável para o desdobramento do plano redentor de Deus.
(2) Em seguida, a aliança de Deus com Abraão (Gn 15; 17) deu início a vários estágios de alianças feitas com a nação de Israel como povo escolhido de Deus. Deus prometeu que os descendentes de Abraão receberiam grandes bênçãos e seriam instrumentos de bênção para toda a raça humana.
(3) Na sequência, a nação de Israel recebeu a aliança da lei mosaica (Êx 19—24) durante o êxodo da terra do Egito. Essa aliança visava conduzir Israel a bênçãos ainda maiores na Terra Prometida.
(4) Quando Davi subiu ao trono, Deus fez uma aliança real com ele (2Sm 7; Sl 89; 132), na qual prometeu abençoar os filhos de Davi que fossem fiéis e nunca tomar o trono de Israel da família de Davi.
(5) Por fim, a aliança da graça atingiu o seu ponto culminante com a nova aliança instituída por Cristo (Jr 31; Lc 22.20; 1Co 11.25; Hb 8.8-13). Essa aliança se dá em três estágios: a primeira vinda de Cristo, a História antes de sua volta e a consumação do seu reino. Nesse desenrolar da aliança da graça, seus estágios não diferem em substância; antes, são “um e o mesmo sob várias dispensações” (CFW 7.6).

Os estágios da aliança da graça manifestados nas alianças nacionais que Deus fez com Israel no Antigo Testamento tinham como propósito específico preparar o povo de Deus para a vinda do seu Filho, que cumpriria todas as promessas de Deus e daria forma às sombras dos tipos do Antigo Testamento (Is 40.10; Ml 3.1; Jo 1.14; Hb 7—10). Na nova aliança, as disposições temporárias para a concessão dessas bênçãos foram substituídas pelo cumprimento do que elas prefiguravam, ou seja, Jesus Cristo, o Mediador da nova aliança, o descendente de Abraão e herdeiro de suas promessas (Gl 3.16). Cristo obedeceu à lei perfeitamente e se ofereceu como o sacrifício legítimo e definitivo pelo pecado. Como filho de Davi, hoje Cristo reina sobre o mundo na condição de herdeiro de todas as bênçãos de perdão, paz e comunhão com Deus em sua criação renovada, conforme as promessas da aliança — bênçãos que ele concede aos cristãos no tempo presente (Rm 8.17). Cristo não apenas se entregou pelos eleitos, como também enviou do seu trono de glória o Espírito Santo e, desse modo, selou o povo de Deus como propriedade sua (2Co 1.22; Ef 1.13-14).
Como Hb 7—10 explica, a nova aliança é a expressão suprema da aliança única e eterna da graça de Deus com os pecadores (Hb 13.20) — um estágio superior àqueles do Antigo Testamento, com promessas superiores (Hb 8.6), baseadas num sacrifício superior (Hb 9.23), oferecido por um sumo sacerdote superior, num santuário superior, garantindo uma esperança superior (Hb 7.26—8.13) que não havia sido revelada de tal modo em nenhum dos outros estágios da aliança. A efetivação em Cristo das antigas alianças feitas com Israel também cumpre a promessa de que a porta da fé se abriria para um grande número de gentios. A fim de estender o reino de Deus por todo o mundo (veja o artigo teológico “O reino de Deus”, em Mt 4), tanto judeus quanto gentios se tornam descendentes de Abraão pela fé em Cristo (Gl 3.26-29), enquanto os judeus e gentios que não estão em Cristo estão também fora da aliança da graça (Rm 4.9- 17; 11.13-24).
As Escrituras descrevem os elementos das alianças de Deus com o seu povo em termos paralelos aos tratados internacionais que eram firmados entre soberanos do antigo Oriente Próximo. De maneira explícita ou implícita, quatro dinâmicas fundamentais podem ser observadas em cada um dos estágios da aliança bíblica:
(1) Deus se revela como o Rei benevolente que inicia e sustenta o seu povo escolhido em sua relação de aliança com ele.
(2) Deus exige gratidão fiel daqueles que são incluídos em suas alianças.
(3) Aqueles que violarem manifestamente as alianças divinas são julgados.
(4) Aqueles que forem fiéis a essas alianças são abençoados.

Como Rei divino do universo (veja o artigo teológico “O reino de Deus”, em Mt 4: O reino de Deus: Um reino presente ou futuro?), Deus usou as prescrições de suas alianças para levar o seu povo ao seu objetivo final: reunir um povo redimido “de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7.9), que habitará numa ordem mundial renovada (Ap 21.1-5). Nisso, a relação de aliança alcançará a sua expressão mais plena: “Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles” (Ap 21.3). Nos dias de hoje, o reino de Deus ainda está avançando em direção a esse alvo.
A estrutura dupla de uma aliança das obras e outra da graça descreve todo o relacionamento soberano de Deus com a humanidade. A salvação nos foi concedida porque Cristo cumpriu os requisitos da aliança das obras por meio de sua obediência perfeita. Em decorrência disso, a nossa salvação é uma salvação da aliança: justificação e adoção, regeneração e santificação são misericórdias da aliança; a eleição foi a escolha feita por Deus dos membros dessa comunidade purificada e definitiva da aliança, a igreja invisível (veja o artigo teológico “A igreja visível e a invisível”, em 1Pe 4); o batismo e a Ceia do Senhor, que correspondem à circuncisão e à Páscoa, são ordenanças da aliança; a lei de Deus é a lei da aliança e guardar a sua lei é a expressão mais verdadeira de gratidão e lealdade em resposta à graça de Deus demonstrada na aliança. A renovação dos nossos compromissos dentro da aliança com Deus em resposta à sua fidelidade deve ser um exercício devocional habitual de todos os cristãos, tanto no culto público quanto no particular. A compreensão da aliança da graça nos orienta e ajuda a apreciar não apenas a diversidade das Escrituras, mas também a sua extraordinária unidade.

Fonte: Artigo extraido da Bíblia de Estudo de Genebra
2ª Edição Revisada e Ampliada

domingo, 20 de janeiro de 2013

A criação, a queda e a redenção: Porque há tanta corrupção?

       Apesar de alguns intérpretes considerarem a história de Adão e Eva um relato figurativo, as Escrituras ensinam que existiu um indivíduo que caiu em pecado, o que fez com que a maldição de Deus caísse sobre toda a criação e a humanidade. Em Gênesis, Adão é associado aos patriarcas e, com eles, ao restante da humanidade por meio das genealogias naturais (caps. 5, 10, 11). Esse fato deixa claro que Adão existiu no tempo, no espaço e na História tanto quanto Abraão, Isaque e Jacó.
       Além disso, o apóstolo Paulo indica que a origem da condição humana decaída foi o pecado de um homem real, Adão, o qual ele descreve como o nosso antepassado comum (At 17.26; Rm 5.12-14; cf. 1Co 15.22). Essa é a interpretação autorizada do Novo Testamento dos acontecimentos registrados em Gn 3, onde encontramos o relato da queda, quando o ser humano original deixou Deus e a retidão e mergulhou no pecado e na morte.
        A teologia reformada se apoia em grande medida na realidade histórica da queda no pecado. João Calvino estruturou uma parte considerável da sua teologia em torno dos temas da criação, da queda e da redenção, concentrando-se nos paralelo entre Adão e Cristo. Adão foi originalmente criado em retidão, mas caiu num estado de corrupção e julgamento e, agora, encontramos redenção da maldição da queda ao aceitarmo, pela fé, a obra expiatória de Jesus Cristo em nosso favor. Esses temas podem ser encontrados em todos os credos e catecismos reformados (CFW 6,7; BC 15-26; CM 21-45; CB 14-17; CH 6-20).
           As Escrituras ensinam pelo menos cinco verdades fundamentais relacionadas à queda:
1. Deus conferiu ao primeiro homem o papel de representante de toda a sua posteridade, do mesmo modo que, mais tarde, designou Jesus Cristo como representante de todos os eleitos de Deus (Rm 5.15-19 com 8.29-30; 9.22-26).

2. Deus colocou o primeiro homem num estado de alegria pura e prometeu que ele e seus descentendes continuariam nesse estado se ele demonstrasse fidelidade e obediência total --- de modo específico, ao não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

3. O pecado de Adão e Eva colocou-se, e a aos seus descendentes (toda a humanidade), sob o jugo do pecado e da culpa, de modo que eles e todos os seres humanos passaram a sentir vergonha e medo diante de Deus (Gn 3.7-11). O primeiro casal foi amaldiçoado com expectativas de dor e morte e expulso do paraiso do Éden (Gn 3.14-24).

4. Toda a criação foi colocada sob uma maldição divina em consequência do pecado de Adão e Eva. A atual desarmonia na natureza que, com frequência, torna o mundo um ambiente hostil para todos os seres vivos, é resultante da queda (Rm 8.20-23).

5. Já nos dias de Adão e Eva Deus começou a demonstrar misericórdia mediante a sua promessa de que, um dia, a descendência da mulher feriria a cabeça da serpente (Gn 3.15). Essa promessa se cumpriu em Cristo, que redime o seu povo e restaura a criação à sua ordem devida (Rm 8.20-21; Ap 21.1-5).
           A narrativa da queda fornece uma explicação histórica convincente da perverção humana e da corrupção da natureza. Se não crermos na veracidade do relato de Gênesis, teremos grande dificuldade em entender Cristo, a quem o Novo Testamento descreve como "o último Adão" (1 Co 15.45), pois, por meio de sua morte sacrificial e ressurreição, ele revogou os efeitos trágicos dos atos do primeiro Adão (Rm 5.12-19; 1Co 15.22).

Abreviaturas:
CFW - Confissão de Fé de Westminster
BC - Breve Catecismo
CM - Catecismo Maior
CB - Confissão Belga
CH - Catecismo de Heildelberg

Fonte: Artigo extraido da Bíblia de Estudo de Genebra
2ª Edição Revisada e Ampliada

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O corpo e a alma na Bíblia: O que eu sou?


        Neste mundo, cada ser humano é constituido de um corpo exterior material e animado e de um cerne pessoal e imaterial. As Escrituras chamam esse aspecto interior do nosso ser de "alma" e "espírito".
        A teologia reformada nega que o homem seja "tricótomo" (constituído de três partes distintas: corpo, alma e espírito). O conceito segundo o qual a alma diz respeito somente à percepção deste mundo, enquanto o espírito é uma parte distinta da personalidade que pode ter comunhão com Deus e com o mundo sobrenatural, difere tanto do ensinamento bíblico quanto do uso dos termos hebraico e grego (as duas línguas usam "alma" e "espírito" como sinônimos). Ainda que, a princípio, algumas passagens pareçam fazer distinção entre alma e espírito (p. ex., 1 Ts 5.23; Hb 4.12), essas passagens não visam identificar as partes que constituem o ser humano. Hb 4.12 - o texto citado com mais frequência em defesa da tricotomia - afirma que a Palavra de Deus "penetra até o ponto de dividir alma e espírito". No entanto, essa passagem não atribui pensamentos e atitudes nem ao espírito nem à alma, mas sim ao coração. Nesse versículo em particular, as três palavras -- coração, alma e espírito -- identificam de modo sinômimo a parte incorpórea dos seres humanos. Na verdade, caso se considerasse que todos os termos diferentes associados aos aspectos incorpóreos da humanidade são componentes distintos nas pessoas (p. ex., coração, alma, mente, espírito, partes interiores, o mais profundo do ser, o âmago), a tentativa de criar subdivisões causaria confusões intermináveis.
        A teologia reformada também enfatiza que o nosso corpo físico é parte integrante do plano de Deus para os seres humanos. Quando o corpo humano foi criado por Deus, ele não possuía nenhum aspecto mau ou corruptível. Se a humanidade não tivesse caído em pecado, as enfermidades e o processo de envelhecimento que conduzem à morte não teriam se tornado parte da experiência humana (Gn 2.17; 3.19, 22; Rm 5.12). Em decorrência disso, a salvação em Cristo é a salvação da pessoa como um todo -- corpo e alma. Assim como Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos tanto espiritual quanto fisicamente, só seremos interiramente libertos dos efeitos do pecado quando recebermos a renovação interior e exterior total. Enquanto Cristo não volta, ao mesmo tempo em que o nosso corpo continua a sofrer corrupção (2Co 4.16-18). Mas quando Cristo voltar em glória, receberemos a nossa plen, incluindo a redenção do nosso corpo (Rm 8.23).
         Na morte e no estado intermediário entre a morte e a ressurreição final, enquanto os mortos aguardam a volta de Cristo, o corpo e a alma são separados. No entanto, esse não é o nosso destino final. A esperança cristã não é que a alma seja redimida do corpo, mas sim que o corpo e a alma sejam redimidos juntos. Embora as Escrituas não expliquem a natureza exata do nosso corpo glorificado, sabemos que será relacionado ao nosso corpo atual de tal modo que manteremos a nossa identidade singular (1Co 15.35-49; Fp 3.20-21; Cl 3.4).

Fonte: Artigo extraído da Bíblia de Estudo de Genebra
2ª Edição Revisada e Ampliada

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Criados à imagem de Deus: Quem sou eu?

             Embora Deus soubesse tudo o que os seres humanos se tornariam e fariam, até mesmo a nossa queda em pecado, a primeira coisa que a Bíblia diz a nosso respeito (Gn 1.26-27, repetido em 5.1; 9.6; 1Co 11.7; Tg 3.9) é que somos semelhantes a Deus de maneiras que não se aplicam a nenhuma outra criatura. No hebraico, a expressão "à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (Gn 1.26) significa que Deus criou os seres humanos para serem sua imagem e semelhança. Somos "portadores da imagem" de Deus, mas não de uma maneira que essa característica possa ser separada de nós. Antes, somos, intrínseca e irrevogavelmente, sua imagem e semelhança.
               Tadricionalmente, a teologia reformada tem enfatizado várias dimensões importantes do que essa expressão significa. João Calvino usou as cartas paulinas para ressaltar que ser a imagem Deus está intitamente relacionado a tornar-se como Cristo, "em justiça e retidão" (Ef 4.24). Os cristãos se revestem "do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou" (Cl 3.10). É verdade que somos imagens distorcidas de Deus, corrompidas pelo pecado, mas, em Cristo, somo restaurados à bondade original que caracteriza Adão e Eva no jardim. Outros teólogos reformados enfatizam que todas as pessoas são como Deus no sentido de que todos nós somo criaturas pessoais, racionais, criativas e morais. Sem dúvida, todos esses conceitos são verdadeiros e valiosos.
           No entanto, o contexto imediato de Gn 1.27-28 tem muito mais a nos ensinar acerca da imagem de Deus. No contexto histórico antigo, ser uma imagem de Deus era associado a ser um filho real de Deus. Acreditava-se que os reis eram filhos dos deuses, imbuídos da honra de garantir que a vontade do céu fosse feita na terra. Esse conceito fazia parte do plano de Deus para os reis de Israel, que também eram chamados de filhos de Deus (1Cr 28.6; Sl 2.7). Em Gênesis, porém, ocorre uma ampliação radical desse conceito de filho ou imagem de Deus: a expressão "imagem de Deus" é aplicada a todos os seres humanos, "homem e mulher os criou" (Gn 1.27).
              Assim, na visão bíblica, todos os seres humanos recebem a honra e o valor outrora atribuídos somente à realiza (Sl 8.3-8). Todas as pessoas foram colocadas no mundo para demonstrar a glória do verdadeiro Deus vivo, o grande Rei do universo, ao realizar a sua vontade na terra. Na teologia reformada, esse papel dos seres humanos é chamado, com frequência, de "mandato cultural", referindo-se à benção e responsabilidade que nos cabe de desenvolver a cultura sob o senhorio de Cristo (Gn 1.28-30). Essa missão se cumpre plenamente em Jesus, que ordenou ao seu povo fiel, a imagem redimida de Deus, que cumprisse o mandato cultural por meio do "mandato do evangelho", proclamando o nome de Cristo por todo o mundo (Mt. 28.18-20).

Fonte: Artigo extraído da Bíblia de Estudo de Genebra
2ª Edição Revisada e Ampliada

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Que diferença faz se Deus existe?

 As pessoas ocidentais por viverem em contextos de origem cristã não conseguem perceber a importância da existência de Deus. Então, devemos mostrar as implicações da existência de Deus para pessoas descrentes. Na Rússia está havendo um crescimento do cristianismo devido “a prova do contrário”, pois o povo viu que o marxismo por tantos anos não deu certo.
Filósofos existencialistas como Sartre analisaram que de fato a inexistência de Deus torna a vida sem sentido. Apesar disso não ser uma prova em favor da existência de Deus, isso mostra a importância da pergunta. Ninguém que conhece as implicações do ateísmo pode ignorar a pergunta “que diferença faz se Deus existe”, pois sem Deus a vida humana é absurda: a vida não tem sentido, valor ou propósitos superiores e definitivos.
  1. Sentido: significado (porque algo importa)
  2. Valor: bem ou mal (certo ou errado)
  3. Propósito: alvo (razão de algo existir)
Minha defesa é que se Deus não existe, então tais coisas não existem, além de em nossas próprias cabeças. Não estou dizendo que ateus são imorais ou não tem alvos, mas que segundo o ateísmo todas as coisas são somente ilusões subjetivas.
Consideremos a questão da imortalidade. Se Deus não existir tanto o homem quanto o universo estão fadados à morte, ao “não ser”. Conforme diz o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre: “Uma vez perdida a eternidade, não faz muita diferença se isso demorar muitas horas ou muitos anos”. A consequência disso é que a vida se torna absurda:
1) Sem sentido final: se toda pessoa deixa de existir quando morre, qual a diferença final faz nossa vida. Certamente, podemos ter influência relativa, mas nenhuma importância absoluta. Em última análise, não faz diferença e a humanidade não tem nenhuma diferença de um bando de mosquitos. Mas mesmo tendo imortalidade, não é só disso que o homem precisa para ter sentido. O homem precisa de imortalidade e de Deus e se Deus não existe, o homem não tem nenhum dos dois.
2) Sem valor: sem imortalidade e se tanto o bom quanto o mal tem o mesmo fim, então não existe razão para sermos morais. “Não pode haver virtude sem imortalidade” (Dostoievski). Dizer que a moralidade flui de interesses comuns (uma mão lava outra) é uma resposta simplista que ignora que os interesses de algumas pessoas vão diretamente contra o de outras. Sem imortalidade não há nenhum razão objetiva para moralidade. E se Deus não existe, não há um padrão objetivo de moralidade, tornando-se só uma construção do gosto pessoal, da evolução ou da sociedade.
3) Sem propósito: se tudo está fadado à morte, então não há nenhum propósito na vida ou no universo.  Se Deus não existe, a vaidade descrita em Eclesiastes é verdade: “Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade” (Eclesiastes 3:19). Se a vida acaba com a morte não temos um propósito final com a vida. E, além disso, mesmo com a imortalidade, mas sem Deus, o homem continuaria a sendo um mero acidente cósmico, um produto casual de matéria, tempo e chance, sem razão nenhuma de existência. Se Deus não existe você não passa de um aborto da natureza, lançados sem propósitos para viverem uma vida sem propósito.
Se Deus não existe, então tudo o que temos é o desespero. Como Schaeffer diz: “Se Deus está morto, então o homem também o está”. O filósofo ateu Bertrand Russell, por exemplo, sugeriu que devemos construir nossas vidas “sob o firme fundamento do desespero incessante”.  A vida consistente com o ateísmo é uma vida infeliz. Toda felicidade de um ateu é uma inconsistência. Nietzsche, filósofo existencialismo, em uma história previu as consequências do ateísmo:
Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá , por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”. (Nietzsche, A Gaia ciência, fragmento 125)
A cosmovisão cristã fornece tanto a existência de Deus, quanto a imortalidade, necessárias para uma vida significativa e objetivamente feliz. Então, se só tivéssemos isso, parece muito mais razoável escolher o cristianismo. Conforme a aposta de Pascal: “quem apostar na existência de Deus, se ganhar, é evidente que tudo ganha, mas caso perca, nada perde. Trata-se de um jogo em que se arrisca o finito para ganhar o infinito”.
Você consegue ver agora a importância da pergunta “Que diferença faz se Deus existe?”? Considere-a atentamente.
 

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